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Destaques - Entrevista - Especiais - Superliga - 3 de maio de 2019

William, na nona final seguida de Superliga: “Não me sinto como um cara de 40 anos”

O playoff entre Sesi e EMS/Taubaté marca a nona decisão seguida do levantador William na Superliga Cimed masculina. Uma pequena mostra do quanto a presença dele nesta década fez a diferença. Aos 39 anos, ele entrará em quadra, neste sábado, na Arena Suzano, às 21h30, com a obrigação de conduzir o time da capital à vitória para forçar o quinto e decisivo jogo da série.

Nesta entrevista ao Web Vôlei, o Mago, apelido ganho por William na passagem vencedora pelo Bolívar, da Argentina, antes de explodir pelo Sada/Cruzeiro, aborda vários assuntos com a mesma habilidade demonstrada para superar os maiores bloqueios.

A SEQUÊNCIA DE FINAIS
É meio surreal pensar em algo assim no alto nível. Qual o motivo para eu ter conseguido? Eu não sei dizer. Na verdade eu busco isso o tempo todo. É algo incessante, sou muito competitivo comigo mesmo. É minha visão da profissão, minha crença no que sou capaz. Acomodação não existe para mim.

LONGEVIDADE
Essa competitividade aumenta muito com o tempo. Quando você chega numa certa idade, vai descobrindo a existência de tabus, existe sim um pouco de preconceito. É preciso lutar contra isso todo dia. Infelizmente no esporte isso é nítido. Uma vez ouvi isso do Marcelinho. Com uma certa idade, se você sofre uma lesão, vai brigar contra o paradigma de que está acabado e ainda pode ser útil. Eu não me sinto como um cara de 40 anos.

PROBLEMAS COM DIFERENTES GERAÇÕES
Confesso que não gosto de falar muito sobre essas diferenças geracionais, pois vai parecer que sou meio saudosista. Mas é claro que existem diferenças entre a minha, ou melhor, a nossa, e a atual. Eu li o que a Sheilla falou e concordo com ela. Na minha época de categorias de base, eu via o treino do adulto lá no Banespa. Jogava na seleção paulista infanto, via o treino deles até o fim, enchia o saco dos jogadores depois dos treinos, queria dicas, ia procurar os caras no carros no estacionamento para entender as coisas, pegava bola nos treinos. Eu queria fazer parte daquele mundo. E o respeito que existia com os mais velhos era diferente. Mas não é só uma questão geracional. O vôlei mudou. Lá atrás, o jogador precisava fazer bem todos os fundamentos. Hoje, se o cara tem 2,15m e pega a bola a 3,70m, já é tratado como diferenciado, mesmo se não souber dar um toque ou passar uma bola de manchete. A chegada ao alto nível está mais fácil e nem sempre ela é valorizada. Ficou mais cômodo e mais tranquilo para os mais novos.

William é o atual capitão  do Sesi-SP na temporada 2018/2019 (Divulgação)

APOSENTADORIA
Quando sentir que perdi a competitividade que citei antes eu paro de jogar. Mas adianto que pretendo jogar por mais tempo. Isso não passa pela minha cabeça. Mas vou dizer que é um assunto que me tira o sono quando já paro para pensar. Ainda não me vejo fazendo outra coisa. E sabe outro motivo que não me faz pensar em parar? Eu ainda não me vi no auge. Sei que ainda posso jogar melhor. Como plano para o futuro, ainda penso em ter uma oportunidade na Europa, permitindo fazer minha família experimentar uma outra cultura.

PLANEJAMENTO DA CARREIRA
Sempre planejei tudo na minha vida. Na minha cabeça, quando eu tivesse filhos iria parar de jogar, aos 33, 34 anos. Tive a minha filha com 33. E nesta idade veio a minha primeira convocação para a Seleção Brasileira. Assim tudo o que eu planejei acabou indo para um sentido contrário. Queria ter tido tempo para vivenciar toda a experiência da paternidade. Hoje, teria mudado o planejamento para ter tido os filhos antes. Outro dia minha filha falou: “a única vez que vi você chorar foi de alegria, no alto do pódio, abraçado ao Serginho”. Cara, isso tem um valor enorme. Ser vencedor na vida, mostrar para eles os valores do esporte, tudo o que isso representa, ganhando ou perdendo.

ELOGIOS DE COMPANHEIROS E ADVERSÁRIOS
Isso é muito importante para mim. Sempre foi difícil vencer no vôlei pela altura que tenho (1,86m). Falavam do meu biotipo, sempre escutei que era baixo para o cenário internacional, que não iria chegar a lugar nenhum. Mas meu pai sempre me dizia: você vai ser o melhor. E eu carregava isso comigo. Essas críticas sempre me motivaram e prometi para o meu pai que não seria apenas mais um. Quando recebo esse feedback agora mostra que tudo não foi em vão. Deus me deu um dom e soube aproveitá-lo. É bom saber da admiração dos outros. Já ouvi companheiros me falando que comigo eles foram mais longe e desde a Intelbras, lá em 2002, 2003. Estiva, Reinaldo, Bob, alguns caras que já estavam se aposentando, foram vistos de outra forma. Mais recentemente com Wallace, com Alan… Isso mexe com o ego.

INFLUÊNCIA DOS TREINADORES
O maior aprendizado do atleta é tirar o melhor de cada treinador com que trabalha. Identificar o que ele tem de bom e absorver. Todos os treinadores têm virtudes, mas têm defeitos. E o atleta precisa aprender sempre. Eu tenho essa cabeça e muitas vezes vejo o jogo com a cabeça do treinador. Na Olimpíada de 2016, o Bernardinho chegou e falou isso para mim: “Vai lá e coloca o seu jogo”. E isso é importante para o levantador. É ele quem sabe o momento para acionar o atacante, é ele quem sabe se aquele cara é o ideal para receber no 24 a 23. Isso para mim é uma forma de gerir o grupo, algo que o levantador tem como obrigação. Com o tempo você passa a identificar cada situação.

A RELAÇÃO COM O PAI
Perdi meu pai com 17 anos (William morreu em um acidente aéreo com voo da TAM, em 1996, logo depois da decolagem em Congonhas. Foram 99 vítimas fatais). Naquela época, tinha muitos planos para fazer com ele. Aquela coisa de comprar o primeiro carro, de aprender a dirigir, para compartilhar as besteiras da idade mesmo, ter alguém para me nortear. Perdi minha referência, passei a ser o homem da família, aquela coisa de assumir a responsabilidade numa casa com minha mãe e minhas irmãs. Estava no meu primeiro ano como profissional e comecei a conversar em casa para largar e ir trabalhar para ajudar nas contas da casa. Mas minhas irmãs disseram que de maneira alguma me deixariam parar. Eu carregava o sonho deles. Minhas irmãs já trabalhavam, meu pai tinha deixado um dinheirinho para minha mãe. O acidente ficou muito tempo na minha cabeça. No primeiro Mundial infanto que joguei, no Irã, eu pensava: não quero entrar num avião nunca mais. Durante a competição, o Percy (Oncken, treinador) fez uma roda com toda a Seleção. Eu já tinha falado para ele que talvez desistisse da carreira. Aí ele falou, para todo mundo ouvir, que acreditava em mim, que não aceitaria que eu parasse e que meu caminho estava traçado. O apoio da família e do treinador da Seleção fez com que eu seguisse em frente.

SELEÇÃO
Em 2017, pedi dispensa da Liga Mundial. Precisava de um tempo para mim, para minha família. Disse para o Renan que se ele precisasse de mim depois eu estaria 100% focado. Para mim, o comprometimento precisa ser constante. Se eu me permiti estar na Seleção, vou com essa mentalidade, estando lá de corpo e alma. Eu me cobro muito, então isso é primordial. Grandes atletas pensam assim. E estou falando de Federer, Nadal, Tiger Woods, Tom Brady… Sem demagogia, eu penso assim. Não consigo empurrar com a barriga, fingir que estou machucado. Se é para estar na Seleção, longe da minha família, o que é mais difícil de tudo, vou dar meu máximo.

JOGAR EM SUZANO
Eu era um menino, com um sonho, quando joguei em Suzano. Tinha 16 anos. Logo na entrada da cidade, lembro de uma placa: Bem-vindo a Suzano, a capital do vôlei. A cidade respira vôlei. Para mim foi um momento bem difícil, o Ricardo (Navajas) era um cara complicado, o clima era ruim. Lembro que às vezes ela avisava que o pau iria quebrar e não deixava eu e outros meninos, como o Ezinho, o Canhoto, acompanharem. E olha que as brigas aconteciam quase todos os dias. Quando saí de lá, eu ouvi: se você joga em Suzano, joga em qualquer outro lugar.

Por Daniel Bortoletto

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