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Destaques - Entrevista - 24 de agosto de 2020

Eder: passou pela covid e agora buscar vencer na Alemanha

Campeão olímpico deu longa entrevista a jornal alemão

O corte de investimento do Sesi na equipe masculina para a temporada 2020/2021 forçou a saída do país de alguns destaques do elenco. Um deles foi o central Eder, campeão olímpico em 2016 com a Seleção Brasileira. O experiente jogador de 36 anos fechou contrato com o Berlim Recycling Volleys e já treina na Alemanha desde a última terça-feira.

Nesta segunda-feira, ele teve uma entrevista publicada no Berliner Zeitung, falando da decisão de mudar de país, das expectativas no novo desafio, das dificuldades impostas pelo coronavírus e também sobre futebol. Nos primeiros dias de treino em Berlim, o time utilizou uma quadra de vôlei de praia e permitiram aos atletas partidas de futebol.

O Brasil é conhecido pelo vôlei de praia. Hoje o treinador colocou o futebol de areia no programa. Você está melhor com suas pernas ou braços?
O futebol é como uma religião no Brasil. Todos os meninos sonham em se tornar um jogador de futebol profissional. Eu também era assim. Mas eu simplesmente cresci muito. Então eu tive que mudar meu sonho. Mas sou um grande fã de futebol.

Qual o seu time?
Grêmio. Você conhece?

Porto Alegre?
Sim. É muito perto de minha casa. Na verdade, meu nome é Eder porque meu pai era um grande fã do meio-campista Eder. O nome do meu irmão é Renato. Renato Gaúcho também jogava. Agora ele é o técnico do Grêmio. Como jogador, conquistou a final da Copa do Mundo pelo Grêmio em 1983, contra o Hamburgo, time alemão.

E você ficou triste quando descobriu que aos 2,05 metros seria alto demais para um jogador de futebol?
Não, eu nunca fui realmente notável. Foi apenas um sonho. Comecei a nadar ainda criança por recomendação porque tenho asma. Depois de cinco anos, achei muito chato sempre ficar sozinho na água. Joguei vôlei na escola. Um amigo me levou ao clube.

Você mudou para o vôlei de praia durante o período de restrições por conta do coronavírus?
Treinei na areia o tempo todo, mas não joguei vôlei de praia. Foi um exercício físico, mais exercício do que voleibol.

As medidas contra o coronavírus dificultaram a viagem a Berlim para você e seus dois compatriotas: Davy e Renan Michelucci. Eles chegaram mais tarde do que o planejado. Qual era o problema?
Foi muito difícil. As normas mudam quase todas as semanas. Tive o coronavírus no início da pandemia. Esse foi o resultado de um exame de sangue que fiz no Brasil. Estou feliz por já ter tido o corona – sem sintomas. Cerca de duas semanas atrás, as regras do coronavírus foram alteradas para permitir que os trabalhadores entrem na Alemanha. Antes disso, apenas médicos e profissionais de saúde podiam entrar. Tivemos problemas para conseguir o visto porque o consulado estava fechado.

Então você estava esperando seu visto com as malas prontas?
O problema era conseguir uma consulta no consulado. Tentamos todas as semanas, todos os dias. Em algum momento, recebemos nossos vistos.

O Brasil tem o segundo maior número de infectados depois dos EUA. Como você lidou com a pandemia e o comportamento do presidente Jair Bolsonaro?
É muito complicado. A maioria das pessoas no Brasil não pode ficar em casa. Você tem que ir trabalhar. Mas o governo não tem qualificações para ajudar como deveria. É por isso que não podemos impedir a pandemia. Tivemos 1.000 mortes todos os dias nos últimos dois meses. A única solução para o Brasil é uma vacina.

O governo tem mais aprovação do que nunca porque dá ajuda financeira.
Sim, mas o valor é muito pequeno. É uma boa ajuda para os pobres. No entanto, a burocracia é tão complicada que a maioria deles não recebe porque nem mesmo solicita.

Você jogou vôlei no Brasil a maior parte da sua carreira, exceto por um ano no Trentino. Na Itália você conheceu a Champions League.
É a melhor competição de clubes do mundo, muito exigente. Quando joguei no Trentino, perdemos no Final 6 para o Civitanova. Freqüentemente, há viagens longas, por exemplo, para a Rússia. Mas estamos acostumados com viagens longas do Brasil.

Por que você decidiu jogar na Alemanha e não em uma liga mais forte como na Itália, Rússia ou Polônia?
Eu tinha um contrato com o Sesi para a próxima temporada. Antes mesmo do coronavírus, o clube decidiu rescindir todos os contratos e continuar com uma equipe sub-21. Foi assim que cheguei ao mercado. Tive várias ofertas. Escolhi Berlim porque é um dos clubes mais profissionais do mundo. E agora que estou aqui, é ainda melhor do que o esperado. Claro, também foi um dos motivos Berlim disputar a Liga dos Campeões (confira aqui dos grupos da Champions). Tentei toda a minha vida estar em bons clubes com bons jogadores que podem ganhar campeonatos. Eu também sabia que Berlim era uma grande cidade.

Você conhecia algum jogador da equipe?
Já joguei contra alguns: Tuia, Pujol, Grankin.

Grankin é como você: campeão olímpico.
Sim, ele é um dos melhores jogadores do mundo. Ele sempre foi muito bom quando jogamos contra a Rússia. Estou feliz e animado para jogar com ele agora. Mesmo com Pujol. Ele foi da seleção francesa por muito tempo. Temos grandes jogadores em todas as posições em Berlim.

Sua esposa Natalia veio a Berlim com você?
Não, ela acabou de começar a trabalhar como técnica de alimentos em um novo emprego no Brasil. Ela trabalha em uma das maiores empresas do mundo. É por isso que ela não pode ficar comigo. Essa é a parte mais difícil para mim. Quando assinei em Berlim, sabia que era a decisão certa, mas não a mais fácil. Eu tenho que lidar com isso.

Você postou algumas fotos da medalha de ouro olímpica de 2016 no Rio de Janeiro na sua página do Instagram. 
Foi um momento tão especial na frente do meu próprio público. Principalmente porque fui o último jogador a ser cortado do time olímpico antes das Olimpíadas de 2008 e 2012. Portanto, era um grande objetivo para mim. Dois meses antes dos Jogos de 2016, machuquei meu polegar. O tempo de recuperação deveria ser de dois meses. Mas depois de uma semana, voltei a jogar. Porque a Olimpíada era meu sonho, minha chance. Enfiei meu polegar no dedo indicador com fita adesiva. Você pode ver isso nas fotos. É assim que sempre joguei. Encontrei uma maneira de me acostumar com isso e interpretei o problema como uma força para me ajudar a atingir meu objetivo. Portanto, a medalha de ouro foi um grande alívio. Não consigo explicar o quanto fiquei feliz, orgulhoso. Meu país. Meu sonho. Minha medalha de ouro.

Você trouxe uma lembrança especial do Brasil com você para Berlim?
Uma bandeira brasileira …

Está pendurada na parede?
Ainda não. Eu nem mesmo desfiz todas as malas que trouxe comigo. Talvez a bandeira esteja na parede ou na varanda. Claro, também tenho muitas fotos de minha esposa e de minha família.

E suas primeiras impressões de Berlim?
Tive boas lembranças de Berlim porque estive aqui com a Seleção juvenil em 2003. Agora a cidade me parece ainda mais bonita. Não tive muito tempo para explorá-la. Além disso, por causa do coronavírus, também temos que observar as regras. De qualquer forma, moro perto do centro de treinamento no campo. É muito tranquilo, muito bonito, só a uma quadra dos outros companheiros brasileiros. Já mandei alguns vídeos para minha esposa. Ela ficou encantada.

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