Carol Solberg
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Destaques - Entrevista - Praia - 27 de novembro de 2020

Carol Solberg: “Essa história não termina aqui”

Em entrevista à revista Marie Claire, a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg falou da sua absolvição no Superior Tribunal de Justiça Desportiva da CBV, depois do “Fora Bolsonaro”, de seu papel como mãe de meninos e contou sobre um assédio de um treinador quando ainda era adolescente.

A vida de Carol Solberg virou de cabeça para baixo no dia 20 de setembro, quando fez o protesto “Fora Bolsonaro” ao vivo, durante a transmissão do canal SporTV, ao conquistar a medalha de bronze na etapa de Saquarema do Circuito Brasileiro.

Na segunda-feira passada, ela foi absolvida da advertência levada em 13 de outubro, em última instância, pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva.

– Essa história não termina aqui. Existe um debate muito grande sobre esse assunto e as regras podem ser revistas e alteradas até para pior. Desejo muito que futuras gerações se inspirem nesse episódio, que acreditem na força da sua voz – completou a jogadora de 33 anos, mãe de José, de 8 anos, e Salvador, de 4, frutos do casamento com o fotógrafo Fernando Young.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

RESULTADO DO JULGAMENTO

Fiquei muito feliz por ter sido absolvida, acho que foi importante. Mas tem muita coisa que ainda pode acontecer. Essa história não termina aqui. Existe um debate muito grande sobre esse assunto e as regras podem ser revistas e alteradas, até para pior. Espero que seja para melhor, mas sei que existem possibilidades. Mas serve de inspiração para essa nova geração, de olhar e saber que é importante a gente se posicionar quando a gente acredita numa causa, usar nossa voz para o que acha importante. Se atletas se unirem, pode dar certo.

UNIÃO DOS ATLETAS

Não existe nenhuma união, até a nota da comissão do vôlei mostra que ainda não existe união da classe. Tem muito a melhorar. Confesso que não vejo nenhum movimento, não vejo os atletas querendo ter esse lugar de fala, espero que isso mude. Muitas pessoas não sabem a dimensão da própria voz. Tem gente que gosta da posição de neutralidade, o que eu respeito também. Só acho muito ruim quando essa neutralidade é imposta, o que acontece no esporte. As regras influenciam muito nisso porque os atletas estão sempre com medo, não criam o hábito de questionar e se colocar em causas importantes. Sempre tem risco de sofrer punição, perder patrocínio, passar por tudo que passei. É confuso para o atleta. O fato de eu ter sido absolvida encoraja e mostra que a gente pode se colocar também.

APOIO E ATAQUES NAS REDES SOCIAIS

Tentei me proteger e não ficar lendo os ataques. Recebi muito apoio de muita gente bacana e de pessoas que eu admiro, que me deram muita força. Minha família – minha mãe, meus irmãos e meu marido – ficaram ao meu lado o tempo inteiro. Para me manter com a cabeça boa, fui vivendo a vida real.

ARREPENDIMENTO?

Não me arrependo de nada.

MÃE DE MENINOS E MACHISMO

É uma mega responsabilidade, uma missão muito importante. Tento conversar bastante com meus filhos sobre isso. Temos que ser exemplo em casa, não só eu como meu marido. Acredito muito que a criação de um filho faz parte das pessoas que estão ao redor. Nosso papel é esse, dar liberdade para eles serem livres e conversar sobre machismo, sobre o olhar deles para o mundo. Sempre me preocupei, desde pequenininhos, desde os brinquedos – para não ter essa coisa de brinquedo de menina e de menino. Eles têm panelinha, podem cuidar de boneca, isso é importante. São coisas pequenas, mas que fazem parte, ajudar cozinha, nas coisas da casa. E faço questão de dizer para eles o quanto eu amo meu trabalho. Vou tentar ser a melhor mãe que eu puder ser e dizer que eles podem fazer o quiserem. Até levei o Salvador para fazer aula de balé, se ele não gostar, tudo bem, mas é importante apresentar tudo. Não tem o que é ‘para menina’ e o que é ‘para menino’.

FILHA DE ISABEL

Eu admiro muito a minha mãe, é uma mulher muito forte. Teve filho muito cedo, aos 17 anos, se separou, criou a Pilar sozinha. Meus irmãos tiveram pais ausentes, mas ela segurou a onda total e continuou jogando. Ela nunca se acomodou em casamento. Tem gente que critica. Quando eu era garota, na escola, falavam ‘sua mãe tem vários maridos’, mas eu sempre tive a maior admiração de ver ela buscando a felicidade dela. Às vezes minha mãe ficava sem grana, todo mundo se dividia em casa, aí ela fechava um contrato e todo mundo vibrava junto. Sou muito próxima dos meus irmãos, a gente faz parte da vida um do outro. Minha mãe é muito responsável por essa relação que a gente tem, ela não deixava a gente dormir brigado. Sempre muito generosa e disponível.

MACHISMO

O machismo está entranhado na nossa sociedade, então com certeza já vivi no dia a dia, quando era garota viajando com a Seleção, os técnicos são sempre homens. A gente vivencia o tempo inteiro. Nesse episódio ficou mais explícito. Temos um governo machista que não aceita críticas. No julgamento, o presidente do STJD foi extremamente machista. Ele falou comigo como se eu fosse uma criança, me deu um ‘puxão de orelha’. Não acredito que ele falaria com um homem da mesma forma.

ASSÉDIO?

Toda mulher já se sentiu acuada e com medo. Você viaja o mundo inteiro, chega no aeroporto sozinha e pega um táxi de madrugada, por exemplo. Lembro quando fui para a Seleção Brasileira, aos 14 anos, em Minas, e senti uma coisa estranha. O técnico, na hora de mostrar os exercícios, botava a mão na perna das meninas. Conversei com a minha mãe. E falei: ‘Pode me mostrar, mas não precisa encostar em mim’. Falei com as meninas e acho que ele sentiu, não aconteceu mais. Acho que por minha mãe ser do vôlei, deu uma freada. Não soube de nada que tenha acontecido a mais, nunca vivi algum episódio mais sério. Mas se pensar a quantidade de meninas que saem de casa muito cedo… O meio do esporte é perigoso, precisamos ficar atentas.

PATROCÍNIO

Estou correndo atrás de patrocínio. Sei que tem marcas bacanas que não vêem isso como impedimento. E quero buscar marcas que acreditem em liberdade de expressão, marcas bacanas.

TALITA

A Talita é atleta militar, então ela não pode se manifestar politicamente. Mas ela me deu força, disse que eu tinha que falar o que eu pensava e que estava comigo.

FUTURO

Esse ano foi um ano que não aconteceu. O Circuito Mundial foi 100% cancelado. Foi um ano quase sem campeonato. Do jeito que as coisas estão, não tem torneio marcado, está um pouco no escuro. Tem mais dois campeonatos brasileiros, um agora em novembro e outro no início de dezembro. Estou me preparando para esses torneios. Estou em terceiro do ranking brasileiro, quero estar entre os melhores do Brasil no torneio mundial. E quero poder levantar esse debate sobre a liberdade de expressão no esporte. É importante na nossa sociedade falar sobre censura, ainda mais com esse governo. Estou feliz que esse debate está em jogo.

MENSAGEM

Desejo muito que as futuras gerações se inspirem nesse episódio, que acreditem na força da sua voz. O atleta tem um papel muito maior na sociedade, não é só entretenimento. Você não pode ser exemplo para nada se não puder falar o que você pensa. É importante a gente se colocar, sim.

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