
Douglas Souza, aos 31 anos: novos sonhos, maturidade e carinho pelo Vôlei Renata
Aos 31 anos, campeão olímpico revela mudanças na vida pessoal, elogia Campinas e projeta novas conquistas com o Brasil
O campeão olímpico Douglas Souza quer viver, em Campinas, uma nova fase da carreira. Aos 31 anos, o ponteiro do Vôlei Renata fala com entusiasmo sobre o presente, mas também demonstra uma visão mais madura sobre o futuro. Agora casado e de volta à Seleção Brasileira após cinco anos, ele sonha com o bicampeonato olímpico em Los Angeles-2028, quer recuperar seu espaço no time de Bernardinho e ainda tem uma lista de títulos que pretende conquistar, começando pelo novo time.
Em entrevista ao jornalista Daniel Bortoletto, do Web Vôlei, antes de fraturar o nariz na semifinal do Campeonato Paulista, Douglas falou sobre a chegada a Campinas, cidade com a qual mantém uma relação afetiva desde a adolescência e onde conheceu o marido.
Também falou sobre a importância dos cuidados físicos, a relação com os jogadores mais jovens, a admiração pelo técnico Horacio Dileo e o carinho que recebe dos torcedores. Fora das quadras, encontrou uma maneira de manter sua presença nas redes sociais sem abrir mão da privacidade e da energia necessária para jogar.
Douglas continua bem-humorado e espontâneo. A diferença é que, agora, diz entender melhor os limites do próprio corpo, valoriza a estabilidade pessoal e sabe que os grandes objetivos exigem paciência. Entre o desejo de conquistar títulos pelo Vôlei Renata e a ambição de voltar ao topo do mundo com a camisa do Brasil, ele garante que ainda tem muitos sonhos pela frente.
Uma nova fase aos 30
“Ah, tá sendo, né? Eu acabei de fazer 31 anos. Depois que chega anos 30, parece que você tem que virar adulto de verdade. Então um monte de coisa acontece na sua vida. Esse momento tá acontecendo na minha e eu estou gostando. Está sendo legal aqui de Campinas. Gosto bastante do time, aqui a gente tem uma estrutura legal, gostosa”
O que mudou dos 18 para os 31 anos
“Ah, eu me cuido muito mais, sabe? Quando eu tinha 18 anos, eu acho que eu vivia muito à base do talento. Mas eu não tinha muita a consciência e tal do que é fazer uma boa academia, uma boa alimentação, dormir bem, sabe? Descansar bem.
Então, por exemplo, quando eu tinha 18 anos, eu conheci meu marido numa festa. Então a gente saía muito, graças a Deus eu conheci ele cedo. Eu tinha 21 anos, já dei uma sossegada e já consegui dar um foco maior. Tanto que ele me ajuda horrores em alimentação, porque ele também é um cara super saudável. E uma coisa puxa a outra, entendeu?
Então eu acho que esse cuidado com o corpo, com a mente, é uma coisa que eu não tinha com 18 anos, porque eu só vivia, tipo, ai, vamos aí, emendava um campeonato no outro, também nem tinha muito tempo pra ficar pensando nessas coisas.
Mas agora precisa ter um planejamento certinho. Vai jogar tal campeonato, então a gente precisa fazer uma dieta pra isso, a gente tem acompanhamento, então isso ajuda bastante.”

Campinas, a cidade onde conheceu o marido
“Então, eu conheci meu marido em Campinas, né? Eu conheci ele aqui, porque quando a gente era interior, o único lugar que tinha baladinha, festas, essas coisas, era em Campinas. Quando eu tinha 14 anos de idade, eu não saía muito de Santa Bárbara, porque não tinha muitas condições.
Mas quando eu estava jogando no Sesi, por exemplo, eu vinha muito pra cá, porque era em São Paulo, jogava na Vila Leopoldina no sábado e vinha à noite aqui curtir com meus amigos e tal.
Então eu sempre tive essa relação muito próxima com Campinas e exatamente isso, né? Tipo, minha cidade não tinha um shopping grande e tal. Aqui tem shopping legal que você fica passeando o dia inteiro, um cinema legal.
Eu sabia que aqui era gostoso de morar e tem esse carinho especial pois foi aqui que conheci meu marido. Então a gente já conhecia bastante. Ele fez Unicamp também, então a cidade é bem familiar para nós”
O carinho pela torcida do Vôlei Renata
“Eu também estava morrendo de saudade de jogar aqui o Paulista, porque passei duas temporadas jogando lá em Contagem o Campeonato Mineiro.
Aqui tem um pouco mais de competitividade e são os times onde se concentra mais a Superliga. Então acho que pra gente é um bom treinamento pro começo da temporada. Eu gosto muito de jogar no Taquaral, estava morrendo de saudade e a torcida daqui é maravilhosa.
Eu sou um dos últimos a sair do ginásio, entendeu? Eu fico curtindo foto com todo mundo, que é até um jeito de agradecimento, né? Todo jogo escuto muita gente falando que, sei lá, veio tantas horas de busão só pra vir ver a gente, sabe? Então preciso fazer valer a pena esses momentos deles, né? Esse sacrifício, entre aspas assim, de vir ver, porque é legal, porque lota o ginásio, né?
Acho que o nosso ginásio, se eu não me engano, é um dos que mais lota na Superliga, sabe? No momento importante vai estar o ginásio inteiro torcendo, independente se a gente está ganhando, está perdendo. Então procuro dar essa atenção”
Horacio Dileo: “Ele é um amorzinho”
“A gente está construindo uma relação ainda, né? Mas é incrível. No dia a dia, ele é ótimo, porque trata bastante dos detalhes, sabe? Do carinho, do capricho na bola, isso é muito bom. E ele dá uma base, um apoio pra gente dentro do jogo, entendeu? Pra gente conseguir executar as coisas que ele quer fazer no meio do jogo.
E assim, ele é um amorzinho, né? Ele conversa com todo mundo, brinca com todo mundo, tem o jeitão dele e tal. E isso faz o time dar certo, pois todo mundo compra a ideia dele, sabe?
A gente agora, no começo da temporada, está meio que se entrosando, mas ele já vai passando as ideias do que quer ao longo da temporada. Mas ele é incrível, né? Todo mundo fala muito bem. Não tem uma pessoa que fala mal do Horacio”
O retorno à Seleção e a paciência para reconquistar espaço
“Eu sabia que ia ser um processo, que não ia chegar lá e jogar. Eu sei que tem muita gente lá que já tá há muitos anos, que não saiu e continuou lá. Então não é assim: ‘Ai, vou chegar e vou sair jogando tudo.’ Não, não é bem assim que funcionam as coisas, e eu sabia disso.
Mas eu estava tratando muito mais também como uma adaptação, sabe? Tipo de voltar, de não ter férias…
E eu estou direto, né? Tipo, eu não viajei porque eles foram fazer uma preparação lá fora, jogaram no Japão, na Itália, fizeram todos aqueles amistosos lá fora. E eu, por motivos pessoais, acabei ficando. Mas eu fiquei treinando e tal, aqui no time, que foi bom, mas eu não tive férias. Eu mantive a atividade.
Foi tudo incrível com os meninos, com a comissão técnica, o Bernardo, ele é sempre muito transparente, é muito legal conviver com ele. Ele é um líder bom, assim, né? Então isso dá uma certa segurança.
Mas essa primeira temporada era mais pra uma adaptação mesmo, sabe? De tipo: vai voltar aos poucos, vai jogar um jogo ou outro e tal, sentir a atmosfera de novo, pra então no próximo ano a gente já entrar pesado”
Mundial de 2027: o desejo de repetir o prêmio de melhor ponteiro
“Ano que vem, se Deus quiser, tem um mundial, né? E eu quero defender o meu posto de melhor ponteiro, porque no único mundial que eu fui, eu saí com isso e eu queria repetir de novo. Mas com a medalha de ouro, né, lógico.”
Carinho da torcida na VNL em Brasília
“Senti. Mesmo ficando cinco anos longe da Seleção, literalmente todo jogo, podia ser do Paulista, do Mineiro, podia ser Superliga, podia ser o que fosse, fosse de tirar foto com alguém, sempre tinha gente falando: ‘Tem que voltar pra Seleção, tem que voltar pra Seleção’.
E aí eu meio que, tipo, ai, tá bom, a voz do povo é a voz de Deus, sabe? Quando estava pronto, me sentindo bem, decidi. E a galera abraça. apoia muito. Eu não fui pro Sul-Americano, mas eu estava ali, fazia parte do grupo, e mesmo assim muita gente mandando mensagem, sabe? ‘Ah, você tem que tá lá, não sei o quê’. E eu: ‘Calma, gente, não é assim, é um processo’.
Mas isso é muito bacana, sabe? Tipo esse respeito, esse carinho das pessoas”

O sonho do bicampeonato olímpico em Los Angeles-2028
“Eu preciso ser bicampeão olímpico. Isso é uma coisa que eu tenho que fazer em 2028, se Deus quiser. Mas assim, eu tenho Copa Brasil, que eu nunca ganhei. Eu preciso ganhar. E vai ser esse ano, se Deus quiser, junto com Campinas.
Campeonato Mundial de clubes. Eu quero um campeonato, jogar legal, sabe? Porque o único que eu fui campeão, não consegui desempenhar bem, e esse eu gostaria mais, sabe? Tipo, não precisa ser esse ano, mas pode ser no próximo. É uma construção também.
Confio bastante na minha comissão técnica, no Horacio, no Leozinho, que eu trabalhei na Seleção de base. Então a gente é uma construção. Mas são coisas que eu quero, são vários títulos que eu quero também. Eu tenho muitos sonhos lá”
A importância da Seleção de base na formação
“Lógico que era um Douglas naturalmente muito mais jovem, muito mais inocente com algumas coisas da vida, mas eu acho que faz parte da construção, faz parte de quem eu sou hoje.
Mas esses campeonatos de base, assim, eu acho que eles são muito importantes, né? Porque você vai criando uma casca ali, você vai já acostumando com o ginásio, com decisões, né? Em 2013, com o Leozinho, eu era infanto e tinha subido pro juvenil. E a gente foi jogar uma final de um campeonato mundial.
Isso tudo é uma certa preparação pro futuro. Eu morro de saudade da base, inclusive”
Ajuda aos jogadores da base
“Em todo projeto que eu passo, eu sempre tento um pouquinho, assim, o mínimo de contato com a base. Pelo menos os meninos que sobem, treinam com a gente, eu tento conversar bastante com eles e deixar eles bastante à vontade, até porque eu sei o quão difícil é, né?
Tipo, eu estou com 31, mas assim, parece que ontem eu tinha 18 e eu estava no meio dos adultos ali, sabe? Tendo que me virar e dá vergonha, dá medo, medo de errar, é normal. E aí a gente tenta deixar o ambiente o mais tranquilo possível pra pelo menos eles poderem desenvolver da melhor forma possível dentro do treino.
Os adultos ali precisam passar um pouco da experiência, um pouco do que a gente viveu, porque daqui a pouco vão ser eles que vão estar vivendo tudo isso. Vamos estar disputando uma final, se Deus quiser de um Campeonato Paulista, de uma Copa Brasil, de um Sul-Americano… Então eles são o futuro e a gente precisa dar esse suporte, esse apoio”
A nova relação com as redes sociais e a privacidade
“Chegou num ponto na minha vida em que eu não estava tendo muita privacidade, assim, sabe? Tipo, se eu fosse pra qualquer lugar, as pessoas me reconheciam, foto, isso e aquilo. Eu gosto, não tem problema… Pelo menos na minha cabeça, eu queria transformar ali o meu Instagram, minhas redes sociais, numa coisa um pouco mais profissional, sabe?
Falar para as pessoas quando vai ter jogo, onde compra ingresso, vai começar a fazer venda de camisetas, enfim, rola tudo isso, tudo muito bem pensado. Mas não que eu tenha que gastar a minha energia para produzir o conteúdo, sabe? Porque senão acho que fica muito pesado.
Então, o que agora eu tenho: o meu marido, ele faz basicamente todos os conteúdos. Então eu só jogo, entendeu? Eu me preocupo em jogar, ele está ali filmando na beira da quadra, junta, faz o vídeo, entendeu? Ele edita e posta.
Isso já ajuda, pelo menos me mantém ali nas redes sociais, lógico. Mas o meu contato com o fã é mais ‘tete a tete’, né? Eu gosto muito, por exemplo, quando ele vem, sei lá, depois do jogo, fico fora ali conversando com a galera, trocando ideia, tirando foto. Eu gosto muito mais do que, sabe, na rede social, a galera comentando, não sei o quê.
Acho que a rede social é importante para visibilidade do nosso esporte, mas eu não acho que é tudo”

O carisma de um “meme ambulante”
“Eu dei uma paradinha até porque eu não sei se é bom ou se é ruim, mas eu sou meio que já um meme ambulante, assim. Então só de estar jogando, de estar em quadra. E tipo assim, isso acontece diariamente, sabe?
Com os meninos treinando aqui, se você assistir um treino, eu olhar pro lado, já tem gente rindo porque achou que a minha virada pro lado foi engraçada e eu estou tipo só existindo, entendeu?
Então eu já entendi isso, tá tudo bem, vai ter meme, vai ter coisa, vai ter corte, mas eu vou estar ali existindo, entendeu? Mas eu gosto.”


