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Coluna - Destaques - 8 de abril de 2019

O ranking da discórdia


A Superliga Feminina pode conhecer hoje os dois finalistas da edição 2018/2019, a 25ª da história. Era para ser aquele momento para exaltar jogadoras, analisar a tática vencedora dos treinadores, contar a história dos projetos ainda vivos na briga pelo título, exaltar o ápice da temporada. Mas não é bem isso.

A manutenção do ranking de atletas, confirmada no fim do mês passado, azedou o clima entre a Confederação Brasileira (CBV), os clubes e as principais jogadoras do país. Como escreve a entidade em suas notas oficiais sobre o tema, “o ranking foi implantado na temporada 92/93 da Superliga, com o objetivo de gerar equilíbrio entre os times participantes da competição”. Naquela época, todas as atletas levavam uma pontuação e os times tinham de formar os elenco respeitando um limite máximo de pontos. Atualmente, apenas um seleto grupo é chamado de “sete pontos”, limitando duas jogadoras deste porte em cada equipe. São elas: a levantadora Dani Lins, Macris e Fabíola, as centrais Fabiana e Thaisa, as pontas Fernanda Garay, Gabi e Natália e as oposto Tandara e Tifanny.

A decisão foi dos clubes, chancelada pela CBV, a organizadora da Superliga. Na votação sobre o ranking, apenas um deles, o Dentil/Praia Clube, além da comissão de atletas da entidade, votou pela extinção. Ou seja: a maioria venceu.

Em entrevista ao site Web Vôlei, neste domingo, a levantadora Macris, que foi incluída no grupo de “sete pontos” nesta última reunião, provoca uma importante reflexão: os critérios utilizados para definição das “atletas top”

“Fiquei extremamente surpresa, sem entender o que estava acontecendo, afinal, eu pensava que haviam critérios para alcançar tal pontuação, os quais eu não possuo, como ser campeã olímpica, ou no mínimo ter participado de alguma Olimpíada, ou Campeonato Mundial ou pelo menos ter jogado algum jogo de titular na Seleção principal em algum campeonato internacional, ou ter ido para alguma final de campeonato nacional, coisas que eu nunca fiz até então”, reclamou a jogadora do Minas.

Uma das críticas principais ao ranking sempre foi exatamente o critério (ou falta dele) para pontuar atletas. Muitas vezes o representante de um clube pontuava alguém pensando na formação do próprio elenco ou para enfraquecimento de um adversário. Nunca me pareceu razoável.

A bicampeã olímpica Thaisa, por exemplo, já deixou claro que sair do Brasil virou uma opção para a próxima temporada. E esse sempre foi um efeito colateral do ranking. “A CBV deu esse poder aos clubes que, por sua vez, só pensam em enfraquecer e desmontar os outros times. Daí tira o direito de uma atleta ir para uma determinada equipe para enfraquecer quem pode mantê-la em seu elenco. A partir disso, nós somos obrigadas a sair do país ou receber 60% menos”.

Fabiana é uma das atletas 7 pontos (Divulgação)

A regra basicamente existe apenas no vôlei brasileiro. Por algum tempo, chegou a fazer sentido. A CBV patrocinou o retorno de craques (do masculino) que estavam no exterior e os distribuiu pelos times. Depois, na tentativa de não consolidar a força em uma equipe com maior potencial econômico, defendeu o ranking. Hoje não acredito ser mais necessário existir. Tanto que entre os homens a norma já caiu na temporada passada. Coincidência ou não, a atual Superliga masculina é a mais equilibrada dos últimos tempos.

O fim do ranking para os homens e a permanência para as mulheres gerou o tópico mais polêmico na reclamação das jogadoras: ausência de direitos iguais, um tema mais do que relevante na nossa atual sociedade.

“Estamos indignadas em perceber que o ranking só continua valendo no feminino. Engraçado a CBV estar indo na contramão dos movimentos igualitários! Machismo até no esporte? Por que somos mulheres?”, questionou Natália, nas redes sociais.

Julgo que o mais urgente para elas é aumentar o engajamento dentro da comissão de atletas e ter voz ativa nos debates. O primeiro passo é a inclusão de Fabiana em um dos comitês da CBV. Assim as jogadoras poderão participar mais ativamente dos bastidores, influenciar decisões e não ficar apenas na reclamação depois do acontecido.

Por Daniel Bortoletto, publicada inicialmente no LANCE!