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Destaques - Fora de Quadra - 16 de maio de 2020

Pelé conta como lidava com o racismo: “não podia perder a cabeça”

Em live para o perfil "Vôlei das Antigas", Pelé contou histórias sobre sua carreira


Em live na última quinta-feira (14.05) no perfil da página Vôlei das Antigas no Instagram, o ex-atacante da Seleção Brasileira, tricampeão brasileiro e bicampeão Sul-Americano com o Fiat/Minas na década de 1980, Pelé, falou sobre sua carreira como atleta e, a partir de 2012, sua vida política.

Atualmente subsecretário estadual de Esportes em Minas Gerais, José Francisco Filho, 62 anos, foi eleito o melhor atacante do Brasil durante sete temporadas seguidas. Jogou como ponteiro e oposto e teve poucas chances na Seleção, numa época em que o Brasil colhia os louros da inédita medalha de prata conquistada nos Jogos Olímpicos de Los Angeles-1984.

Pelé teve infância difícil. Com apenas seis anos, foi para a Febem (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor), onde ficou até completar 12 anos. Trabalhou como trocador de ônibus e chegou a tentar a sorte no futebol, como atacante do América Mineiro. Mas, aos 16 anos, encontrou o vôlei, no Olympico Club, em Belo Horizonte. Dali, passou por clubes como Minas e Atlético Mineiro e conquistou o seu primeiro título estadual no Galo, derrotando o rival Minas na final.

O auge foi no seu retorno ao Minas, em 1984, quando conquistou, em sequência, os três títulos brasileiros em cima das potências da época Bradesco/Atlântida e Pirelli. O Minas tinha jogadores basicamente formados nas categorias do clube. Para chegar a ser um dos principais atacantes do país, no entanto, Pelé  precisou vencer outro adversário: o racismo.

– Fui o primeiro negro a jogar no Minas – relembra.

– É um clube de elite, fechado, e ouvia muito coisas do tipo: “o que esse negão está fazendo aqui?”. As pessoas olhavam torto…. Não respondia. Se quisesse seguir no esporte, no meu objetivo, não podia perder a cabeça. Para fazer parte do processo, tinha de respirar fundo e manter a calma. E ter muita fé – conta.

– Eu tinha na minha cabeça que essa era a minha oportunidade de mudar de vida. E foi. Se eu brigasse, perderia tudo que estava construindo – completa.

Ele se recorda de uma semifinal do Campeonato Brasileiro, contra o Clube Fonte, de Campinas, no Ginásio do Taquaral:

– Apenas uma rede separava a quadra da torcida. Um cara cuspiu em mim, me xingou, me chamou de macaco… Eu respirei, fui até o juiz, contei o que aconteceu e ele foi retirado do ginásio. Se eu tivesse respondido ou caído na provocação, poderia prejudicar meu time e perderia a razão. Ali não fiz nada.  Mas se fosse fora do ginásio…. – lembra.

Pelé jogou um ano na Sadia e passou também pelo vôlei italiano.

– Há 40, 50 anos a palavra “racismo” não existia. Era humilhação mesmo. A gente era humilhado e tinha de engolir tudo para não ser excluído do processo. Mas, depois, tricampeão brasileiro, estendiam tapete vermelho para mim.

Pelé foi um dos pioneiros a fazer da bola do fundo – que hoje recebe o nome de “pipe” – uma opção mortal tanto com a camisa do Minas quanto com a da Seleção.

– Batia uma bola da entrada da rede no fundo que era muito difícil de ser defendida. Eu sempre falava para o levantador. Se tiver de errar, erra pra dentro (mais perto da rede) que eu chego lá. E Era mortal. Hà 40 anos já fazíamos essa jogada – relembra.