
Lucarelli admite Brasil atrás das potências: “Estamos um degrau abaixo”
Capitão e jogador mais experiente da atual Seleção Brasileira masculina, Lucarelli reconhece que o Brasil vive hoje um momento de desvantagem em relação às principais potências do vôlei mundial. Campeão olímpico nos Jogos do Rio 2016, o ponteiro acredita que a equipe precisa ter humildade para entender o cenário e trabalhar para diminuir a distância para os adversários que vêm dominando as principais competições internacionais.
“A gente sabe que realmente está um degrauzinho abaixo das equipes que têm figurado nos últimos anos no top 3. Então acho que é ter essa humildade. Obviamente temos qualidade de jogo, temos jogadores bons, mas temos que entender que, como equipe, precisamos dar um saltinho para tentar chegar mais perto deles”, afirmou.
Lucarelli falou com a imprensa nesta segunda-feira (14/9), no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, na véspera da estreia do Brasil no Sul-Americano Masculino de Vôlei 2026. A equipe comandada por Bernardinho enfrenta o Chile nesta terça-feira (15), às 20h, no mesmo ginásio. Além do título continental, o Brasil busca uma vaga direta nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028.
Por que o Brasil ficou para trás?
Um dos poucos jogadores da atual Seleção que viveu o período de protagonismo brasileiro na década passada, Lucarelli evita apontar uma causa isolada para a mudança de cenário. Para ele, o vôlei internacional passa por ciclos, nos quais determinadas gerações conseguem reunir um número maior de jogadores de alto nível.
“Eu acho que, na verdade, acontecem muitos ciclos. Eu joguei contra equipes que, quando comecei, não achava um time muito forte e que hoje têm praticamente três times para jogar.”
O ponteiro citou a Itália como um dos exemplos mais claros. Depois de um período sem conseguir os principais resultados no adulto, os italianos tiveram gerações vencedoras nas categorias de base e conseguiram transportar parte desses talentos para a seleção principal.
“Tem seleções em que aparecem, em uma ou duas gerações, cinco, oito jogadores que em pouco tempo já estão na Seleção. Acho que a Itália é um exemplo claro disso. A Itália teve anos em que não estava conseguindo chegar muito e, em duas gerações, ganhou tudo na base. Os jogadores estão todos hoje na Seleção.”
Para Lucarelli, a alternância de forças não é novidade na história do vôlei.
“Isso aconteceu também no passado. Teve a época em que a Holanda ganhou muito, depois a Itália ganhou muito, o Brasil ganhou muito. Então acho que é uma coisa natural do esporte.”
Lucarelli fala em melhorar liga e categorias de base
Ao analisar o que pode ser feito para o Brasil recuperar terreno, Lucarelli foi além do desempenho da Seleção principal. O capitão mencionou a necessidade de aumentar o nível da competição nacional e preparar jogadores mais competitivos desde as categorias de base.
“Esse é o nosso momento. É o momento de entender que estamos um pouco atrás nisso. Acho que realmente precisamos voltar a tentar evoluir o nível da nossa liga, evoluir o nível dos jogadores que vão chegando, para ter mais competitividade já desde novos na base.”
Lucarelli também vê sinais positivos nos resultados mais recentes das seleções brasileiras de formação, mas entende que recuperar espaço entre as potências exige tempo.
“Essa questão da nossa Seleção de base, os resultados deste ano já começaram a melhorar um pouco. Então acho que é um pouco disso. É um processo que ninguém gosta. A gente gosta de ganhar sempre.”
Saque é uma diferença para as potências
Na avaliação técnica, Lucarelli reconheceu uma diferença específica entre o atual Brasil e algumas das principais seleções: a potência do saque.
O ponteiro citou Darlan, Bryan e Lukas Bergmann entre os brasileiros capazes de imprimir mais velocidade ao fundamento, mas ponderou que o Brasil tenta compensar a ausência de um número maior de grandes sacadores com consistência.
“Eu acho que no saque, na questão da potência, sim. No nosso time a gente tem o Darlan, que saca acima de 120 (quilômetros por hora), o Bryan e às vezes o Bergmann também, que têm mais potência. Acho que realmente nós não temos tantos jogadores com esse perfil.”
Isso, segundo Lucarelli, não significa necessariamente que o saque brasileiro seja pouco eficiente. O capitão destacou que a Seleção trabalha para diminuir o número de erros e manter pressão constante sobre a linha de recepção adversária.
Ele citou Cachopa como exemplo de um jogador que não depende da potência para conseguir eficiência no fundamento.
“O Bernardinho sempre brinca com o Cachopa que, nos últimos três anos, ele figurou entre os três melhores sacadores em frequência da liga. Ele não é um sacador que saca potente, mas é um cara que dá uma frequência incrível.”
Contra-ataque também precisa evoluir
Além do saque, Lucarelli apontou outro fundamento no qual enxerga espaço importante para evolução: o contra-ataque.
“Uma coisa que a gente pode melhorar é a questão do nosso contra-ataque. É uma coisa que a gente fala muito, estuda bastante: que opções podemos ter, opções de defesa, de ataque, a paciência.”
Para o capitão, entretanto, reconhecer os problemas não significa considerar o Brasil incapaz de voltar a competir pelos principais títulos. A diferença está em aceitar que o momento exige evolução.
“Temos qualidade de jogo, temos jogadores bons. Temos que entender que, como equipe, precisamos dar um saltinho para tentar chegar mais perto deles.”
Depois de atuar no Japão, Lucarelli volta ao vôlei brasileiro na temporada 2026/27 para defender o Itambé Minas. Campeão olímpico no Rio 2016 e atualmente capitão da Seleção, o ponteiro vive agora o outro lado de um ciclo que acompanhou durante boa parte da carreira: o desafio de ajudar o Brasil a recuperar o espaço que ocupou entre as maiores forças do vôlei mundial.


